Jovem desinteressado pela educação ? Atenção com os sinais!

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Em um mundo tão volátil, o professor encontra-se diante de uma árdua tarefa: como fazer do aprendizado algo mais interessante? Segundo Débora de Moraes Coelho, mestre em psicologia social, as novas tecnologias mudaram o paradigma da comunicação, e a escola já não se sustenta como um simples espaço de transmissão de conhecimento. Para ela, mais do que desinteressados, estamos, todos, reféns de um sistema produtivista e individualista, que não favorece a reflexão e as relações sociais. Débora aposta na transformação da escola em um lugar mais democrático, onde família e professores estejam engajados e comprometidos com a autonomia dos jovens.

  • Qual o perfil do estudante hoje? São jovens desinteressados pelo estudo e pelo futuro? É diferente na escola pública ou privada?Atualmente não existem diferenças muito óbvias entre escolas privadas e públicas no sentido de que a privada é boa, o aluno estuda, o professor se dedica porque ganha bem, e na pública acontece o contrário. Eu diria que as escolas são boas ou ruins, independente se são privadas ou públicas. E acredito que isso também se aplica aos jovens. Não dá para generalizar e colocar todos na mesma caixa. O jovem está desinteressado? Depende do quê. A gente tende a colocar a culpa na escola, no professor que parece não ter condições de atrair ou de manter o aluno na escola, e esquecemos da família. Como é que os pais se comunicam com seus filhos? Participam de suas vidas Incentivam o aprendizado e a cultura?
  • Se o jovem está desestimulado e sem foco, é por falta ou excesso de estímulos e informações?

    O que a gente vê é uma mudança cultural muito forte no século 21. O formato da escola, que é do século 19, não atrai os jovens e nem os adultos, que estão desestimulados também. A partir de 1980, nos tornamos uma cultura audiovisual, imagética, que não favorece a reflexão, e isso nos torna mais imediatistas, impacientes e desatentos. É preciso pensar em uma nova estratégia de comunicação, envolvendo a família e procurando entender o que o jovem quer da escola.

  • Talvez a escola ainda esteja numa lógica vertical, onde as decisões são tomadas de forma autoritária…

    Eu tenho acompanhado experiências em diferentes escolas que passam por um trabalho voltado para a autonomia do aluno, na formação de um espaço democrático, quando os alunos também participam de levantamentos e resoluções de problemas, quando eles tentam aprender a lidar com a violência nas relações entre eles, e vejo que essa é a escola viva. Então, os alunos precisam realizar assembleias, trabalhar em grupos, em times, aprender o respeito mútuo no convívio diário. É para isso que apontam essas novas experiências: quando se coloca crianças e adolescentes para falar, no espaço da escola, eles passam a gostar dela.

  • Esse novo modelo que, de certa forma, descentraliza o papel do professor, pode gerar uma crise de autoridade entre aluno e educador?

    Existe a questão da diferença entre ser autoritário e exercer autoridade. A autoridade está em qualquer sistema de grupos, onde há uma liderança, um facilitador. Porém, o professor que sempre foi o detentor da palavra, do poder da prova, e que não quer conhecer e não dá a palavra ao aluno, se sente intimidado em espaços mais democráticos. Mudar o instrumento de avaliação exige muito do professor porque é mais confortável utilizar um método padrão: difícil é criar um instrumento avaliativo baseado no perfil de cada turma. Isso implica em mudar até mesmo a concepção do que é ser professor e dividir o poder com o aluno, permitindo que os alunos aprendam uns com os outros.

  • De que maneira, na prática, o professor pode contribuir para esta escola viva?

    A escola é um lugar para se tecer relações e isso é o que deve ser trabalhado: oferecer liberdade observando o respeito mútuo, proporcionar ao aluno a aprendizagem em espaços abertos, sem estar confinado em sala de aula. Hoje, é preciso observar um novo contexto de geração. O método de ficar limitado ao quadro não estimula, não desafia, cria tédio, sono, evasão. O professor, então, está convocado a mudar, e isso passa, necessariamente, por um processo pessoal. Se temos uma escola em crise, significa que temos que pensar um processo de mudança e de institucionalização de novas práticas. E se depende do sujeito e não de uma máquina, há que se ter paciência para enxergar a diferença. A educação é a construção do sujeito, de como ele vai atuar no mundo. E numa realidade impregnada de descrença, onde se propaga tanta violência, o professor tem muito valor, porque ele faz um trabalho de facilitação do jovem perante suas expectativas de futuro, do confronto entre desejos e possibilidades, o ajuda a descobrir o seu potencial. E em relação à família é a mesma coisa. Quando a criança se expressa, aquilo é tido como sintomático. Os pais precisam ter consciência do trabalho e das responsabilidades de ter filhos, o que implica em investimento afetivo e tempo de dedicação. Não é natural terceirizar a educação dos filhos. A crise da escola vem apontando para algo maior: o que estamos fazendo com a infância? Ainda temos reflexos da ditadura: uma polícia mais punitiva do que pacificadora; uma escola mais voltada para o controle, disciplina e avaliação, do que uma escola libertária.

  • Você disse que o processo de mudança da escola passa por uma mudança pessoal do professor. Como se daria esse processo?

    Os professores estão defensivos e resistentes porque a mudança muitas vezes é imposta. O filósofo Mário Sérgio Cortella fala em pedagocídio, onde tudo é culpa do professor. Na educação, que é algo tão relacional, a gente tem que gostar de pessoas e ter em mente que as pessoas mudam, variam de humor, e é preciso estar preparado para isso. A pergunta principal a ser feita para o professor é: o que você entende por educação? Pois é uma questão que extrapola o conteúdo, abrangendo também as relações, a formação de um cidadão ético. Essa mudança vai acontecer, mas é preciso tempo. Quando eu vejo toda essa pressão por mudança sobre o professor, penso que a ideia de escola, de separar o adulto da criança, e entender que cada um tem um desenvolvimento, levou três séculos, então não vamos fazer todas as mudanças que a escola precisa em apenas um.

  • Vemos um grande contingente de crianças com transtornos psíquicos e também de adolescentes deprimidos. Por quê?

    As pesquisas apontam que nos Estados Unidos o uso de medicamentos como a ritalina é maior do que na França, mas por que isto acontece? Será que a escola não leva em conta que a criança, além da mente, tem um corpo e precisa colocá-lo em movimento? Nos EUA, berço do capitalismo, temos a marca da produtividade que suprime algumas características próprias da infância, como a birra e a inquietação. Aí entra a medicalização, que tira qualquer expressão singular que exige tempo, dedicação e cuidado do adulto. Quando há a compreensão das necessidades de cada fase no processo de crescimento, há a compreensão de que às vezes é natural curvar-se diante de ritmos pessoais, e não simplesmente buscar uma solução medicamentosa. Na Europa, o ritmo do tempo é outro, se preserva a memória. Mas não existe um modelo ideal. Cada família precisa conhecer o filho e entender que a escola tem sentido na adolescência, por exemplo, quando ele/a tem um projeto de vida. A evasão, muitas vezes acontece quando o jovem se sente perdido, sem um projeto para si. Não um projeto necessariamente voltado para a profissão, vocação, mas uma ideia de importância da escola e da aquisição de conhecimentos para si, um espaço de formação ética.

  • O jovem está sendo exigido em demasia?

    A adolescência é uma época muito difícil, porque é a transição quando se quer os benefícios da infância, mas ainda não tem autonomia de adulto. Reflete, sim, nos jovens, a angústia dos pais sobre o futuro deles nesse modelo capitalista, em prepará-los para saber competir e sobreviver neste mundo, ter mais sucesso, e essa exigência é problemática.

  • Apesar das dificuldades que a escola evidencia, que valor ela tem na sociedade?

    A escola é um lugar de socialização, e isso é importante. É um espaço de criação, de escolhas pessoais, porém identificadas num grupo: é um lugar de compartilhamento. Só por esses motivos, ela tem validade, mas depois a gente tem que pensar para que serve a escola num mundo que muda o tempo todo, que já não tem referências tão sólidas e que necessitaria ser mais reflexiva. E aí está o desafio: não mais uma escola tradicional, mas uma escola em movimento, conservando o papel da transmissão de conhecimentos.

Autonomia para mudar

Quem acredita que uma nova escola surgirá de um projeto extremamente inovador, pode estar enganado. É certo que a tecnologia possibilitou novas práticas de comunicação em sala de aula, como o uso de games interativos, por exemplo, mas essa não é exatamente uma ideia nova. Platão, na Grécia antiga, já fazia uso desta ferramenta com os seus discípulos, e a tão falada interdisciplinaridade era a base da Paideia, modelo grego de educação criado por Sófocles.
A Paideia é o berço da pedagogia e consiste na noção de que o processo educacional deve compreender todos os aspectos da vida humana: físico, intelectual e espiritual. Mas o que aconteceu para que a educação perdesse de vista estes valores e se transformasse no que é hoje?

O modelo de escola vigente, criado no século 19 em meio à Revolução Industrial, está voltado, acima de tudo, para o mercado de trabalho. Para a grande parte dos estudantes, estudar é somente uma porta de entrada para um emprego. Neste formato, os ideais da Paideia grega, como ética, cultura e cidadania, não se encaixam, pois não contribuem diretamente com os índices de competitividade. Não foi à toa que durante a ditadura militar, o pensar reflexivo, através de disciplinas como Filosofia e Sociologia, foram banidos do ensino curricular.

Sabemos que para os sofistas da Paideia, a educação significava preparar o cidadão, através da oratória e da retórica, para a prática política. Isto é, a capacidade de argumentação garantia o exercício da democracia na polis grega.
Mas o que esperam da escola os jovens de hoje? Como fazê-los gostar de estudar? Que utilidade prática tem a escola na vida desses jovens? As respostas para estas questões sugerem que, sem um processo de construção da própria presença no mundo, através do debate de ideias, da liberdade e da autonomia, nem professores, nem alunos serão capazes de protagonizar as mudanças que tanto querem e necessitam.

Paulo Freire foi enfático ao dizer que não é possível ser gente sem práticas educativas e este deve ser um processo permanente. Ao nos reconhecermos como seres em construção, inacabados, nos tornamos autônomos, capazes de assumir o direito e o dever de agir. Nas palavras do mestre, “minha presença no mundo não é a de quem apenas se adapta, mas a de quem nele se insere. É a posição de quem luta para não ser apenas objeto, mas sujeito também da História”.

FONTE: Mundo Jovem  

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